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terça-feira, 7 de julho de 2026

RELATÓRIO SOBRE DROGAS 2026 REVELA NOVA DINÂMICA DO NARCOTRÁFICO GLOBAL

 

 

Ítalo do Couto Mantovani*

 

O tráfico internacional de drogas passa por uma profunda transformação. Impulsionadas por avanços tecnológicos, mudanças geopolíticas e fragilidades institucionais, organizações criminosas ampliaram sua capacidade de criar novas substâncias, diversificar rotas de distribuição e expandir mercados consumidores. Esse cenário é apontado pelo Relatório Mundial sobre Drogas 2026, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que alerta para o crescimento da oferta e do consumo de drogas em praticamente todo o mundo.

Segundo o relatório, o crime organizado vem reduzindo sua dependência das rotas tradicionais e dos cultivos agrícolas, investindo cada vez mais na produção de drogas sintéticas. Laboratórios clandestinos, aliados ao uso de aplicativos criptografados, redes sociais e ambientes da dark web, tornaram o tráfico mais ágil e difícil de combater. A diretora executiva do UNODC, Monica Juma, afirma que o aumento sem precedentes de novas drogas representa um dos maiores desafios atuais para a segurança pública e a saúde. Muitas dessas substâncias são mais potentes que as drogas tradicionais e estão associadas ao aumento das mortes por overdose, ao fortalecimento das organizações criminosas e ao agravamento da violência. Para ela, a resposta passa por maior cooperação internacional, compartilhamento de inteligência e investimentos em prevenção e tratamento.

Em 2024, cerca de 331 milhões de pessoas consumiram drogas ilícitas, o equivalente a 6,2% da população mundial entre 15 e 64 anos, contra 5,2% em 2014. A cannabis permanece como a droga mais consumida, seguida por opióides, anfetaminas, cocaína e ecstasy. A expansão das drogas sintéticas é um dos principais pontos de atenção. Em 2024, foram identificados cinco vezes mais tipos de drogas nas apreensões do que antes dos anos 2000. Ao todo, 755 novas substâncias psicoativas circulavam no mercado ilegal, sendo 118 registradas pela primeira vez. A facilidade de produção em laboratórios clandestinos e a constante alteração das fórmulas dificultam o controle por parte das autoridades.

O mercado de opióides também mudou. A queda da produção de ópio no Afeganistão abriu espaço para o avanço de substâncias sintéticas, como fentanilos, nitazenos e orfinas, muito mais potentes e associadas ao aumento de overdoses. Já a metanfetamina consolidou sua presença global, com crescimento da produção, novas rotas de tráfico e apreensões aumentando, em média, 12% ao ano. A cannabis acompanha mudanças nas políticas de legalização e descriminalização em alguns países. O número de usuários cresceu cerca de 40% na última década, enquanto o tráfico internacional se expandiu, especialmente a partir da América do Norte. A cocaína também atingiu níveis históricos de produção, superando quatro mil toneladas em 2024 e avançando para mercados emergentes na África e na Ásia.

Além dos impactos na saúde pública, o narcotráfico fortalece outras atividades do crime organizado, como lavagem de dinheiro, tráfico de armas e corrupção, além de estimular disputas violentas por territórios e rotas de transporte. O relatório também destaca que fatores como pobreza, desigualdade, desemprego e dificuldade de acesso ao tratamento aumentam a vulnerabilidade ao consumo e ao recrutamento por organizações criminosas.

No Brasil, o estado de São Paulo ocupa posição estratégica nesse cenário. Além de concentrar o maior mercado consumidor do país, abriga o Porto de Santos, principal rota de saída da cocaína produzida na América do Sul com destino à Europa e à África. Essa localização faz do estado um dos principais focos de atuação das organizações criminosas e das ações de repressão ao tráfico.A presença dessas redes criminosas também impacta a segurança pública paulista. A disputa por territórios e pelo controle das rotas do tráfico alimenta crimes como homicídios, roubos, lavagem de dinheiro e corrupção. Em resposta, as forças de segurança vêm ampliando operações de inteligência, reforçando a fiscalização em rodovias, aeroportos e no Porto de Santos, além de intensificar o combate às organizações criminosas.

O cenário apresentado pelo UNODC demonstra que o enfrentamento ao narcotráfico exige uma estratégia ampla, que combine repressão qualificada, cooperação internacional, inteligência policial e políticas públicas voltadas à prevenção, ao tratamento da dependência química e à redução das vulnerabilidades sociais. Diante de um mercado cada vez mais tecnológico e globalizado, as respostas também precisam evoluir para acompanhar a velocidade de adaptação das organizações criminosas.

 

 

*Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-

Prefeito da Cidade de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando em História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

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