A
sociedade brasileira vive uma aparente contradição: produz cada vez mais
informação, mas também se deixa conduzir pela desinformação; experimenta
intensa polarização político-partidária, muitas vezes confundida com
participação cidadã; e, embora defenda o respeito e a urbanidade, reproduz
discursos de ódio e intolerância, especialmente nos ambientes digitais. Essas
contradições evidenciam a necessidade de uma educação política capaz de
desenvolver consciência crítica, responsabilidade coletiva e compreensão do
papel ativo de cada cidadão na sociedade. Nesse sentido, educação política e
política educacional são conceitos distintos, mas complementares.
A
educação política compreende conhecimentos e habilidades que permitem ao
cidadão entender o funcionamento do Estado e da sociedade, conhecer seus
direitos e deveres, compreender as instituições democráticas e participar de
forma consciente da vida pública. Envolve também a capacidade de dialogar,
argumentar, respeitar o contraditório e conviver com as diferenças. A política
educacional, por sua vez, corresponde ao conjunto de leis, diretrizes,
programas e ações do Estado destinados a organizar, financiar e orientar a
educação. Manifesta-se em políticas como a BNCC, o Fundeb, o PNAE e o PNLD,
entre outras iniciativas que estruturam o sistema educacional brasileiro.
A
relação entre ambas é de interdependência. Enquanto a educação política busca
formar cidadãos críticos e participativos, a política educacional deve criar as
condições curriculares, institucionais e pedagógicas para que essa formação
aconteça. Essa relação ganhou ainda maior relevância com a Lei nº 15.468/2026,
que alterou a LDB e estabeleceu a educação política e os direitos da cidadania
como componente curricular obrigatório da educação básica. A medida representa
um avanço importante, mas sua efetividade dependerá de como será implementada
nas escolas. O desafio não está apenas em inserir o tema no currículo, mas em
transformá-lo em uma experiência educativa capaz de formar cidadãos autônomos e
conscientes.
Como
ensinou Paulo Freire, a educação possui uma dimensão política. Isso não
significa, entretanto, transformar a escola em espaço de doutrinação partidária
ou ideológica. Uma educação política democrática deve apresentar diferentes
perspectivas, estimular o pensamento crítico e ensinar o estudante a pensar,
questionar e argumentar, e não simplesmente a reproduzir determinada visão de
mundo.
Entre
os desafios estão o risco de partidarização, a resistência de setores da
sociedade, a sobrecarga curricular, a necessidade de formação docente e as
limitações orçamentárias. Também é necessário evitar que a transversalidade
produza invisibilidade: quando um tema é responsabilidade de todos, pode acabar
não sendo efetivamente trabalhado por ninguém.
O
objetivo da educação política não deve ser ensinar em quem votar, mas
compreender como funciona a democracia; não determinar o que pensar, mas
desenvolver a capacidade de pensar criticamente. Em uma sociedade marcada pela
desinformação, pela polarização e pela radicalização dos debates públicos,
conhecer direitos e deveres tornou-se uma necessidade democrática. Conhecer a
Constituição Federal, compreender as instituições e respeitar o contraditório
são instrumentos essenciais para o exercício da cidadania.
Uma
democracia não se sustenta apenas por suas leis e instituições. Sustenta-se
também pela capacidade de seus cidadãos compreendê-las, defendê-las e aperfeiçoá-las.
Educação política e política educacional não são apenas agendas educacionais.
São agendas de democracia. E educar para a cidadania deixou de ser uma escolha:
tornou-se uma emergência democrática.
Por
Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, diretor de escola, licenciado em Pedagogia, MBA
em Liderança e Coaching na Gestão de Pessoas, Mestre e Doutor em Educação. E-mail: rodsouza@educa.pindamonhangaba.sp.gov.br