Alimentar elevadas expectativas em torno
da conquista de uma Copa do Mundo e ser eliminado precocemente, após uma
campanha de baixo desempenho, é frustrante para as novas gerações e melancólico
para aqueles que testemunharam, um dia, o chamado jogo bonito. Para
ambos os grupos permanece a mesma prisão mitológica: acreditar e reproduzir o
antigo ditado de que o Brasil é o país do futebol.
É verdade que o futebol constituiu,
durante grande parte do século XX, especialmente entre as décadas de 1930 e
1990, um dos principais elementos de coesão simbólica da identidade nacional.
As conquistas internacionais contribuíram para atenuar o chamado "complexo
de vira-lata", descrito por Nelson Rodrigues, ao conferir ao país
reconhecimento mundial em um campo de excelência. Naquele contexto, o futebol
tornou-se motivo de orgulho coletivo por representar uma rara experiência de
vitória compartilhada.
Entretanto, o que outrora foi um símbolo
nacional consolidou-se, nas últimas décadas, em um pseudossímbolo impulsionado
por interesses mercadológicos, direitos de transmissão, marketing esportivo e,
mais recentemente, pela massiva presença das casas de apostas — as bets.
Em ambos os períodos históricos, contudo, permaneceu uma constante: o Brasil
foi celebrado como o país do futebol apenas enquanto espetáculo, jamais
enquanto modelo de organização, planejamento, justiça ou desenvolvimento
social. Sob essa perspectiva, a expressão "Brasil, país do futebol"
configura-se muito mais como um mito do que como uma realidade objetiva. Trata-se
de uma narrativa capaz de explicar simbolicamente a experiência do brasileiro,
alimentando antigos sonhos de vitória, redenção e prosperidade.
Oxalá existisse semelhante encantamento em
torno da educação, a ponto de o país ser reconhecido como "Brasil, país da
educação". Não existe. Em relação à educação, não há paixão coletiva,
tampouco uma ilusão mobilizadora; prevalece, em grande medida, a frieza
burocrática do cumprimento dos ritos mínimos estabelecidos pela legislação.
Enquanto o futebol desperta emoções intensas, a educação permanece
frequentemente reduzida a uma obrigação institucional.
O imaginário coletivo da vitória da
seleção brasileira foi abalado, mas não destruído. A mídia, historicamente,
mostrou-se eficiente em alimentar uma esperança passiva, fazendo o torcedor
acreditar que, em algum momento, a seleção voltará, quase milagrosamente, a
conquistar títulos, muitas vezes sem que se discutam seriamente planejamento,
formação de base ou estratégias de longo prazo.
Na educação, ocorre o fenômeno inverso.
Não existem ciclos alternados de euforia e frustração, mas um roteiro secular
que frequentemente transforma a escola em mero ritual de passagem entre a
adolescência dependente e a vida adulta produtiva. A expectativa de formação
integral do ser humano acaba subordinada à lógica da certificação e da inserção
no mercado de trabalho.
Todavia, a derrota da seleção brasileira
oferece uma importante lição à educação. As derrotas, quando reconhecidas com
honestidade intelectual, podem abrir espaço para a autocrítica, para a revisão
de práticas e para a construção de novos caminhos. Toda crise encerra,
potencialmente, uma oportunidade de aperfeiçoamento, desde que exista aquilo
que Viktor Frankl denominou "vontade de sentido": a disposição para
atribuir significado às dificuldades e transformá-las em crescimento.
A educação brasileira poderá, um dia,
despertar o encantamento que o futebol já foi capaz de produzir. Mais do que
isso, poderá alcançar aquilo que o futebol nacional jamais conseguiu consolidar
plenamente: uma estrutura sólida, planejada, inclusiva e orientada pelo
desenvolvimento humano.
Afirmar que o Brasil é o país do futebol
tornou-se, hoje, uma falácia semelhante à afirmação de que a educação constitui
prioridade nacional sob a perspectiva dos investimentos e dos resultados
concretos. A diferença é que o primeiro representa uma paixão coletiva
frequentemente desvinculada de compromisso social, enquanto o segundo expressa
uma esperança reiteradamente proclamada nos discursos, mas insuficientemente
materializada nas políticas públicas.
Se o torcedor brasileiro continua
resiliente, acreditando que a seleção um dia voltará a ser protagonista do
futebol mundial, também é legítimo cultivar esperança semelhante em relação à
educação. A diferença é que essa esperança não pode ser passiva nem depender de
milagres. Ela exige planejamento, continuidade, investimento, responsabilidade
pública e compromisso coletivo, para que a educação deixe de ser apenas uma
promessa recorrente e se torne, efetivamente, a base do pleno desenvolvimento
humano e da transformação da sociedade.
Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, diretor
de escola, licenciado em Pedagogia, MBA em Liderança e Coaching na Gestão de
Pessoas, Mestre e Doutor em Educação. E-mail: rodsouza@educa.pindamonhangaba.sp.gov.br