Ítalo do Couto Mantovani*
A violência
contra a mulher no Estado de São Paulo entra em 2026 longe de qualquer sinal de
recuo, os dados da Secretaria da Segurança
Pública do Estado deixam isso evidente. Mais do que estatísticas, o que
emerge é um retrato incômodo: registros em alta, números que se mantêm elevados
e uma escalada silenciosa dos casos mais extremos. Entre 2025 e os primeiros
meses de 2026, o estado não enfrenta uma ruptura, mas algo possivelmente mais
alarmante: a consolidação de um padrão em que a violência não diminui apenas se
torna mais visível e, em alguns casos, mais letal.
Ao longo de
2025, os níveis de violência de gênero permaneceram extremamente altos. Os
estupros superaram 14 mil casos no ano, com predominância de estupro de
vulnerável (entre 80% e 85% das ocorrências). As lesões corporais dolosas
contra mulheres ultrapassaram 170 mil registros, cerca de 470 agressões por
dia, evidenciando a naturalização da violência, sobretudo em relações íntimas e
familiares. Em alguns recortes, houve crescimento: nos primeiros meses do ano,
os estupros aumentaram cerca de 30% em relação ao período anterior, indicando
maior incidência e também maior registro.
No caso dos
feminicídios, a comparação entre 2024 e 2025 evidencia uma mudança mais sutil,
mas ainda assim relevante. Se em 2024 foram registrados 253 casos, em 2025 esse número sobe para cerca de 270 feminicídios, um aumento de
aproximadamente 7%. Mais do que
a variação percentual, o dado revela a incapacidade
de redução da violência letal, que permanece em patamar elevado e resistente
a quedas consistentes, equivalente a cerca de um feminicídio a cada 32 horas. Como se trata de um indicador com
baixa subnotificação, o feminicídio funciona como um termômetro mais fiel da
gravidade do fenômeno e, nesse sentido, o avanço registrado em 2025 reforça
que, apesar de maior visibilidade e registro, a violência contra a mulher não
apenas persiste, mas segue se intensificando em sua forma mais extrema.
É na passagem
para 2026, entretanto, que o quadro ganha contornos mais inquietantes. No
primeiro bimestre de 2025, haviam sido registrados cerca de 40 feminicídios; no
mesmo período de 2026, o número sobe para 55 casos, um aumento de
aproximadamente 31%. Em termos absolutos, são 13 mortes a mais em apenas dois
meses; em termos de frequência, o estado passa de um feminicídio a cada 32
horas para quase um a cada 26 horas. Essa aceleração da violência letal, em um
intervalo tão curto, não rompe uma estabilidade mas aprofunda um patamar já
elevado, indicando não apenas continuidade, mas uma intensificação mais aguda
da violência.
Nos demais
indicadores, não há redução relevante. Os estupros seguem em níveis semelhantes
aos de 2025, sugerindo novamente mais de 14 mil casos no ano. As lesões
corporais mantêm o mesmo padrão: números altos, pequenas variações e ausência
de queda consistente. O resultado é um padrão de estabilidade em alta, que
naturaliza a violência em larga escala.
Esse
comportamento dos dados reforça uma leitura já consolidada na literatura
acadêmica: a violência contra a mulher é simultaneamente visível e invisível. O
aumento de registros, como o crescimento de até 30% nos estupros em determinados períodos de 2025, pode indicar
maior confiança nas instituições e ampliação dos canais de denúncia. No
entanto, a persistência de números absolutos elevados e, sobretudo, o salto de 31% nos feminicídios no início de 2026,
apontam que a maior visibilidade não tem sido acompanhada por redução efetiva
da violência. Em outras palavras, o Estado está enxergando mais, mas não
necessariamente conseguindo conter mais.
O caso paulista,
nesse sentido, explicita um paradoxo central das políticas contemporâneas de
segurança pública. Há avanços inegáveis na produção de dados, na transparência
e na capacidade institucional de registrar ocorrências. Mas esses avanços
operam, em grande medida, no plano da mensuração, enquanto a estrutura que
sustenta a violência como: desigualdades de gênero, dependência econômica, dinâmicas
familiares violentas permanecem relativamente intactas. O resultado é um
cenário em que os números se sofisticam, mas o problema persiste. Entre 2025 e
2026, portanto, São Paulo não apenas confirma a magnitude da violência contra a
mulher, como evidencia seus limites de enfrentamento. A coexistência de mais de 170 mil agressões anuais, mais de 14 mil estupros e o recente
aumento dos feminicídios não apontam para uma crise episódica, mas para uma
continuidade estruturada. E é justamente essa continuidade, marcada por
pequenas variações percentuais e grandes volumes absolutos, que torna o
fenômeno tão resistente.
Diante
disso, respostas pontuais já não são suficientes. É necessária uma estratégia
articulada que combine, de um lado, o fortalecimento imediato da rede de
proteção com ampliação de delegacias especializadas, casas-abrigo, atendimento
psicológico e jurídico e monitoramento de agressores e, de outro, ações estruturais de prevenção,
como educação para igualdade de gênero, autonomia econômica feminina e
transformação cultural. Sem essa abordagem dupla, o Estado tende a seguir
aprimorando o registro e a reação, mas sem reduzir de forma consistente a
incidência e, sobretudo, a letalidade da violência.
Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da
Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito da Cidade de São Paulo
Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP
Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional
Graduando em História pela USP
Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo
Contato: italocmantovani@gmail.com