Notícias de pindamonhangaba, WALTER MAGUI NOTÍCIAS, Blog com notícias de pinda e toda região do vale da paraíba.

terça-feira, 23 de junho de 2026

POPULAÇÃO NEGRA SEGUE COMO PRINCIPAL VÍTIMA DA VIOLÊNCIA NO BRASIL

 



Ítalo do Couto Mantovani*

A violência contra a população negra permanece como um dos maiores desafios sociais e de segurança pública do Brasil. Apesar da redução gradual de alguns índices criminais nas últimas décadas, os dados demonstram que pessoas negras continuam sendo as principais vítimas da violência letal, da violência policial, do encarceramento e de diversas formas de discriminação racial. O cenário revela que a insegurança no país não afeta todos os grupos da mesma forma, estando diretamente relacionada às desigualdades históricas e estruturais construídas ao longo da formação da sociedade brasileira.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nos últimos dez anos, 445.442 pessoas negras foram assassinadas no Brasil, número mais de três vezes superior ao de vítimas não negras no mesmo período. Em 2023, de cada 100 pessoas mortas violentamente no país, 78 eram negras. Embora tenha ocorrido redução nos homicídios em relação à década anterior, a diminuição foi desigual: entre pessoas negras a queda foi de 19,7%, enquanto entre não negras alcançou 32,1%. Esses dados evidenciam que a violência continua concentrada em grupos historicamente vulnerabilizados.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando observada entre crianças, adolescentes e jovens. Em 2023, 70,3% das crianças assassinadas no Brasil eram negras. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, esse percentual chegou a 85,4%. Além disso, um menino negro de até 19 anos possui 21 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma menina branca. Esses números demonstram que a juventude negra permanece exposta a riscos significativamente maiores, especialmente em áreas periféricas marcadas pela exclusão social e pela ausência de oportunidades.

A desigualdade racial também se manifesta nos indicadores de violência policial. Em âmbito nacional, 82,7% das pessoas mortas em intervenções policiais eram negras. Ao mesmo tempo, 69,7% dos policiais e militares assassinados também pertenciam a esse grupo populacional. O dado evidencia que a violência impacta a população negra em diferentes posições sociais, seja como vítima da criminalidade, seja como integrante das instituições de segurança pública.

No estado de São Paulo, apesar de apresentar uma das menores taxas de homicídio do país, os indicadores revelam importantes desigualdades raciais. Dados divulgados em 2024 apontam que aproximadamente 64% das pessoas mortas pelas polícias Civil e Militar eram negras. Entre janeiro e agosto daquele ano, foram registradas 441 mortes decorrentes de intervenção policial, das quais 283 tiveram vítimas negras. Esses números reforçam o debate sobre a necessidade de políticas públicas que conciliem eficiência policial, proteção dos direitos fundamentais e redução das desigualdades raciais.

A violência também afeta de forma significativa as mulheres negras. Elas representam 68,6% das vítimas de mortes violentas femininas e 63,6% das vítimas de feminicídio no país. Nos casos de estupro e estupro de vulnerável, correspondem a 52,5% das vítimas registradas. Além disso, cerca de 45% das mulheres negras relatam ter sofrido algum tipo de violência praticada por parceiro íntimo ao longo da vida. A combinação entre racismo e desigualdade de gênero amplia a vulnerabilidade desse grupo e dificulta o acesso a mecanismos de proteção.

Outras formas de violência também apresentam forte recorte racial. Em 2023, foram registrados 13.897 casos de injúria racial e 11.610 casos de racismo no Brasil. No mesmo período, pessoas negras representavam 54,3% dos desaparecidos e 69,1% da população prisional. Entre adolescentes submetidos a medidas socioeducativas em regime fechado, o percentual chegava a 63,8%. Esses indicadores demonstram que a desigualdade racial não se restringe à violência letal, estando presente em diferentes dimensões da segurança pública e da vida social.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o enfrentamento da violência contra pessoas negras exige mais do que ações repressivas. É necessário investir em educação, inclusão social, geração de oportunidades, fortalecimento de políticas de igualdade racial e aperfeiçoamento das instituições de segurança pública. Embora o Brasil tenha avançado na produção de dados e no reconhecimento da questão racial como problema público, os números demonstram que ainda há um longo caminho para garantir que a cor da pele deixe de representar um fator determinante de vulnerabilidade. Assim, a violência contra a população negra deve ser compreendida não apenas como um problema de segurança, mas como uma questão de justiça social. A redução efetiva desses indicadores depende da capacidade do Estado e da sociedade de enfrentar as desigualdades históricas que continuam produzindo exclusão, discriminação e maior exposição à violência para milhões de brasileiros.

 

*Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito da Cidade de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando em História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário