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segunda-feira, 4 de maio de 2026

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM SÃO PAULO: UM PROBLEMA QUE NÃO RECUA, APENAS SE AGRAVA



Ítalo do Couto Mantovani*

A violência contra a mulher no Estado de São Paulo entra em 2026 longe de qualquer sinal de recuo, os dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado deixam isso evidente. Mais do que estatísticas, o que emerge é um retrato incômodo: registros em alta, números que se mantêm elevados e uma escalada silenciosa dos casos mais extremos. Entre 2025 e os primeiros meses de 2026, o estado não enfrenta uma ruptura, mas algo possivelmente mais alarmante: a consolidação de um padrão em que a violência não diminui apenas se torna mais visível e, em alguns casos, mais letal.

Ao longo de 2025, os níveis de violência de gênero permaneceram extremamente altos. Os estupros superaram 14 mil casos no ano, com predominância de estupro de vulnerável (entre 80% e 85% das ocorrências). As lesões corporais dolosas contra mulheres ultrapassaram 170 mil registros, cerca de 470 agressões por dia, evidenciando a naturalização da violência, sobretudo em relações íntimas e familiares. Em alguns recortes, houve crescimento: nos primeiros meses do ano, os estupros aumentaram cerca de 30% em relação ao período anterior, indicando maior incidência e também maior registro.

No caso dos feminicídios, a comparação entre 2024 e 2025 evidencia uma mudança mais sutil, mas ainda assim relevante. Se em 2024 foram registrados 253 casos, em 2025 esse número sobe para cerca de 270 feminicídios, um aumento de aproximadamente 7%. Mais do que a variação percentual, o dado revela a incapacidade de redução da violência letal, que permanece em patamar elevado e resistente a quedas consistentes, equivalente a cerca de um feminicídio a cada 32 horas. Como se trata de um indicador com baixa subnotificação, o feminicídio funciona como um termômetro mais fiel da gravidade do fenômeno e, nesse sentido, o avanço registrado em 2025 reforça que, apesar de maior visibilidade e registro, a violência contra a mulher não apenas persiste, mas segue se intensificando em sua forma mais extrema.

É na passagem para 2026, entretanto, que o quadro ganha contornos mais inquietantes. No primeiro bimestre de 2025, haviam sido registrados cerca de 40 feminicídios; no mesmo período de 2026, o número sobe para 55 casos, um aumento de aproximadamente 31%. Em termos absolutos, são 13 mortes a mais em apenas dois meses; em termos de frequência, o estado passa de um feminicídio a cada 32 horas para quase um a cada 26 horas. Essa aceleração da violência letal, em um intervalo tão curto, não rompe uma estabilidade mas aprofunda um patamar já elevado, indicando não apenas continuidade, mas uma intensificação mais aguda da violência.

Nos demais indicadores, não há redução relevante. Os estupros seguem em níveis semelhantes aos de 2025, sugerindo novamente mais de 14 mil casos no ano. As lesões corporais mantêm o mesmo padrão: números altos, pequenas variações e ausência de queda consistente. O resultado é um padrão de estabilidade em alta, que naturaliza a violência em larga escala.

Esse comportamento dos dados reforça uma leitura já consolidada na literatura acadêmica: a violência contra a mulher é simultaneamente visível e invisível. O aumento de registros, como o crescimento de até 30% nos estupros em determinados períodos de 2025, pode indicar maior confiança nas instituições e ampliação dos canais de denúncia. No entanto, a persistência de números absolutos elevados e, sobretudo, o salto de 31% nos feminicídios no início de 2026, apontam que a maior visibilidade não tem sido acompanhada por redução efetiva da violência. Em outras palavras, o Estado está enxergando mais, mas não necessariamente conseguindo conter mais.

O caso paulista, nesse sentido, explicita um paradoxo central das políticas contemporâneas de segurança pública. Há avanços inegáveis na produção de dados, na transparência e na capacidade institucional de registrar ocorrências. Mas esses avanços operam, em grande medida, no plano da mensuração, enquanto a estrutura que sustenta a violência como: desigualdades de gênero, dependência econômica, dinâmicas familiares violentas permanecem relativamente intactas. O resultado é um cenário em que os números se sofisticam, mas o problema persiste. Entre 2025 e 2026, portanto, São Paulo não apenas confirma a magnitude da violência contra a mulher, como evidencia seus limites de enfrentamento. A coexistência de mais de 170 mil agressões anuais, mais de 14 mil estupros e o recente aumento dos feminicídios não apontam para uma crise episódica, mas para uma continuidade estruturada. E é justamente essa continuidade, marcada por pequenas variações percentuais e grandes volumes absolutos, que torna o fenômeno tão resistente.

Diante disso, respostas pontuais já não são suficientes. É necessária uma estratégia articulada que combine, de um lado, o fortalecimento imediato da rede de proteção com ampliação de delegacias especializadas, casas-abrigo, atendimento psicológico e jurídico e monitoramento de agressores  e, de outro, ações estruturais de prevenção, como educação para igualdade de gênero, autonomia econômica feminina e transformação cultural. Sem essa abordagem dupla, o Estado tende a seguir aprimorando o registro e a reação, mas sem reduzir de forma consistente a incidência e, sobretudo, a letalidade da violência.

 

Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito da Cidade de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando em História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

 

 

                                                  

 

 

 

 

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