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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O PREÇO DE NÃO RASTREAR: OS RISCOS DA PERDA DE CONTROLE SOBRE MUNIÇÕES



 

Ítalo do Couto Mantovani*

 

A violência tornou-se a principal preocupação dos brasileiros. Pesquisa Genial/Quaest, divulgada em setembro de 2026, aponta que o tema ocupa o primeiro lugar entre as inquietações nacionais desde janeiro de 2025. Segundo o levantamento, sete em cada dez brasileiros acreditam que a violência aumentou muito nos últimos dois anos, enquanto 67% avaliam que os criminosos estão sendo menos punidos. Assaltos, homicídios e a presença de facções fazem com que a insegurança esteja cada vez mais próxima da realidade cotidiana.

Nesse cenário, a segurança pública ganhou protagonismo no debate presidencial de 2026. Durante o debate promovido pela Rede Globo, um dos assuntos que entraram em discussão foi a proposta de acabar com a identificação das munições, reacendendo uma questão fundamental: qual é o impacto da perda de mecanismos de rastreabilidade no combate ao crime organizado?

Para compreender o problema, é preciso entender como armas e munições chegam às mãos dos criminosos. Segundo análises do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, existem três principais caminhos: contrabando internacional, desvio de arsenais públicos e circulação irregular de produtos provenientes do mercado legal interno, que ganhou dimensão especialmente a partir de 2019. As origens variam conforme o armamento. Fuzis estão mais associados ao mercado internacional, ao contrabando de peças e à fabricação clandestina. Já revólveres e pistolas apresentam maior participação da produção nacional: levantamentos indicam que entre 60% e 70% das armas de menor porte utilizadas em crimes são fabricadas no Brasil.

O mesmo alerta se aplica às munições. Levantamento do Instituto Sou da Paz, realizado a partir do rastreamento de cartuchos apreendidos em investigações relacionadas ao Comando Vermelho, identificou mais de 31 mil cartuchos intactos de fabricação nacional em 29 casos analisados. O número representa aproximadamente quatro em cada dez munições apreendidas. O dado evidencia uma contradição: o Brasil possui uma indústria armamentista expressiva, mas ainda enfrenta dificuldades para impedir que parte de sua produção chegue ao crime organizado.

É nesse contexto que a rastreabilidade assume papel estratégico. Quando criminosos efetuam disparos, os estojos das munições geralmente permanecem no local, permitindo que a perícia identifique calibre, fabricante e, quando há marcação, o lote de origem. No caso das munições destinadas às instituições de segurança pública, a identificação permite relacionar determinado lote à instituição que o recebeu, abrindo caminhos para investigar possíveis desvios. O assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011, no Rio de Janeiro, ilustra a importância da investigação balística. A magistrada, conhecida por sua atuação contra o crime organizado, foi executada com 21 tiros. As investigações identificaram policiais militares envolvidos e apontaram o coronel Cláudio Luiz de Oliveira como mandante.

Outro exemplo é o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. Parte das munições utilizadas no crime pertencia a um lote originalmente vendido à Polícia Federal. Cartuchos do mesmo lote também foram associados a outras ocorrências, incluindo um assalto a carro-forte na Paraíba e a chacina de 2015 na Grande São Paulo, que deixou 23 mortos em Osasco, Barueri, Carapicuíba e Itapevi.

A questão, entretanto, é que esse controle não alcança todas as munições comercializadas no país. Quando o Estatuto do Desarmamento foi instituído, em 2003, a preocupação central era controlar os arsenais das instituições públicas. O cenário mudou a partir de 2019, com a expansão expressiva do mercado civil. Entre 2019 e 2022, quase um bilhão de munições foram comercializadas no Brasil, média de 250 milhões por ano. No mesmo período, o número de CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores) saltou de aproximadamente 100 mil para mais de 800 mil. Grande parte das munições destinadas ao mercado civil não possuía a mesma identificação aplicada aos produtos adquiridos pelas forças de segurança.

Em 2023, o Governo Federal iniciou o recadastramento de armas para dimensionar o arsenal adquirido nos anos anteriores e identificar sua localização. O procedimento revelou lacunas: milhares de armas não foram recadastradas, dificultando o conhecimento e o controle efetivo desses equipamentos. Para dimensionar a lacuna no controle, aproximadamente 6 mil das 51 mil armas classificadas como de uso mais restrito não foram recadastradas. Na prática, isso significa que o poder público permanece sem informações atualizadas sobre a localização e a situação de milhares de armamentos.

A experiência internacional mostra que cada país adota mecanismos próprios de fiscalização. O Brasil, entretanto, reúne características particulares: uma indústria armamentista consolidada, um mercado civil expressivo e décadas de violência associada ao uso de armas de fogo. Nesse contexto, a identificação das munições representa um instrumento relevante para prevenir desvios e auxiliar investigações. A discussão, portanto, vai além do acesso às armas. Trata-se de avaliar a capacidade do Estado de fiscalizar a circulação de munições e identificar sua origem quando utilizadas em crimes. Uma eventual retirada da marcação pode reduzir as informações disponíveis para investigações e dificultar a identificação de desvios.

Em um país onde a violência está entre as maiores preocupações da população, a segurança pública depende não apenas de policiamento e punição, mas também de inteligência, fiscalização e informação. Afinal, um estojo de munição encontrado em uma cena de crime pode ser uma pista decisiva. Perder a capacidade de rastreá-lo significa, potencialmente, perder também uma oportunidade de descobrir quem abastece o crime organizado.

 

*Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito da Cidade de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando em História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

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