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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

 


Educação Política e Política Educacional: interfaces, tensões e desafios na construção da cidadania

A sociedade brasileira vive uma aparente contradição: produz cada vez mais informação, mas também se deixa conduzir pela desinformação; experimenta intensa polarização político-partidária, muitas vezes confundida com participação cidadã; e, embora defenda o respeito e a urbanidade, reproduz discursos de ódio e intolerância, especialmente nos ambientes digitais. Essas contradições evidenciam a necessidade de uma educação política capaz de desenvolver consciência crítica, responsabilidade coletiva e compreensão do papel ativo de cada cidadão na sociedade. Nesse sentido, educação política e política educacional são conceitos distintos, mas complementares.

A educação política compreende conhecimentos e habilidades que permitem ao cidadão entender o funcionamento do Estado e da sociedade, conhecer seus direitos e deveres, compreender as instituições democráticas e participar de forma consciente da vida pública. Envolve também a capacidade de dialogar, argumentar, respeitar o contraditório e conviver com as diferenças. A política educacional, por sua vez, corresponde ao conjunto de leis, diretrizes, programas e ações do Estado destinados a organizar, financiar e orientar a educação. Manifesta-se em políticas como a BNCC, o Fundeb, o PNAE e o PNLD, entre outras iniciativas que estruturam o sistema educacional brasileiro.

A relação entre ambas é de interdependência. Enquanto a educação política busca formar cidadãos críticos e participativos, a política educacional deve criar as condições curriculares, institucionais e pedagógicas para que essa formação aconteça. Essa relação ganhou ainda maior relevância com a Lei nº 15.468/2026, que alterou a LDB e estabeleceu a educação política e os direitos da cidadania como componente curricular obrigatório da educação básica. A medida representa um avanço importante, mas sua efetividade dependerá de como será implementada nas escolas. O desafio não está apenas em inserir o tema no currículo, mas em transformá-lo em uma experiência educativa capaz de formar cidadãos autônomos e conscientes.

Como ensinou Paulo Freire, a educação possui uma dimensão política. Isso não significa, entretanto, transformar a escola em espaço de doutrinação partidária ou ideológica. Uma educação política democrática deve apresentar diferentes perspectivas, estimular o pensamento crítico e ensinar o estudante a pensar, questionar e argumentar, e não simplesmente a reproduzir determinada visão de mundo.

Entre os desafios estão o risco de partidarização, a resistência de setores da sociedade, a sobrecarga curricular, a necessidade de formação docente e as limitações orçamentárias. Também é necessário evitar que a transversalidade produza invisibilidade: quando um tema é responsabilidade de todos, pode acabar não sendo efetivamente trabalhado por ninguém.

O objetivo da educação política não deve ser ensinar em quem votar, mas compreender como funciona a democracia; não determinar o que pensar, mas desenvolver a capacidade de pensar criticamente. Em uma sociedade marcada pela desinformação, pela polarização e pela radicalização dos debates públicos, conhecer direitos e deveres tornou-se uma necessidade democrática. Conhecer a Constituição Federal, compreender as instituições e respeitar o contraditório são instrumentos essenciais para o exercício da cidadania.

Uma democracia não se sustenta apenas por suas leis e instituições. Sustenta-se também pela capacidade de seus cidadãos compreendê-las, defendê-las e aperfeiçoá-las. Educação política e política educacional não são apenas agendas educacionais. São agendas de democracia. E educar para a cidadania deixou de ser uma escolha: tornou-se uma emergência democrática.

Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, diretor de escola, licenciado em Pedagogia, MBA em Liderança e Coaching na Gestão de Pessoas, Mestre e Doutor em Educação. E-mail: rodsouza@educa.pindamonhangaba.sp.gov.br

 

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