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terça-feira, 1 de setembro de 2026

GUARDAS MUNICIPAIS E A TRANSFORMAÇÃO DA SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

 


 

Ítalo do Couto Mantovani*

 

Durante décadas, a segurança pública brasileira foi vista principalmente como uma responsabilidade dos Estados e da União. Polícia Militar, Polícia Civil e forças federais concentravam grande parte das discussões sobre policiamento, prevenção e combate à criminalidade. Nos últimos anos, porém, esse cenário vem mudando. Os municípios ampliaram sua participação na segurança pública, e as Guardas Municipais passaram a ocupar um espaço cada vez mais relevante nesse sistema.

Os dados mais recentes do Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram a dimensão dessa transformação. Entre 2023 e 2025, o efetivo das Guardas Municipais passou de 95.175 para 107.457 agentes, um crescimento de 12,8% em apenas dois anos. Com esse avanço, as Guardas Municipais ultrapassaram as Polícias Civis em número de profissionais e se tornaram a segunda maior força de segurança pública do país, atrás apenas das Polícias Militares.

O crescimento chama ainda mais atenção quando comparado ao de outras instituições. No mesmo período, o efetivo das Polícias Militares passou de 404.871 para 413.319 profissionais, expansão de aproximadamente 2,1%. Enquanto as PMs cresceram de forma mais moderada, as Guardas Municipais avançaram em ritmo significativamente maior. Esse movimento não representa apenas uma mudança no ranking dos efetivos, mas indica uma transformação na maneira como a segurança pública vem sendo organizada no Brasil.

Uma das principais características das Guardas Municipais é sua proximidade com o território. As corporações estão inseridas diretamente na realidade dos municípios e lidam diariamente com questões relacionadas à segurança dos espaços públicos e dos equipamentos municipais. Praças, parques, escolas, terminais, prédios públicos e áreas de grande circulação fazem parte desse cotidiano. Essa presença permite que os municípios conheçam de forma mais direta os problemas enfrentados pela população e desenvolvam respostas de acordo com as características de cada região. Essa proximidade também fortalece o papel dos municípios na formulação das políticas de segurança. Não se trata apenas de aumentar o número de agentes, mas de reconhecer que parte importante dos problemas relacionados à segurança acontece justamente nos espaços administrados pelas cidades. A prevenção, o ordenamento urbano e a proteção dos equipamentos públicos estão diretamente ligados à qualidade de vida e à sensação de segurança da população.

A expansão das Guardas Municipais acompanha, ainda, uma evolução jurídica e institucional. A Constituição Federal prevê a possibilidade de os municípios constituírem guardas para a proteção de seus bens, serviços e instalações. Em 2014, o Estatuto Geral das Guardas Municipais, instituído pela Lei nº 13.022, estabeleceu princípios e competências para essas corporações. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal também reconheceu a inserção das Guardas Municipais no sistema de segurança pública, ampliando a discussão sobre sua atuação e sobre o papel dos municípios.

Esse processo, entretanto, não significa que as Guardas Municipais devam substituir as Polícias Militares ou Civis. Cada instituição possui atribuições próprias e exerce funções diferentes dentro da segurança pública. A Polícia Militar continua sendo a maior força do país e possui papel fundamental no policiamento ostensivo e na preservação da ordem pública, enquanto a Polícia Civil desempenha função essencial na investigação criminal. Nesse contexto, o fortalecimento das Guardas deve ser acompanhado pela integração entre as diferentes instituições.

Uma Guarda Municipal estruturada pode ampliar a presença preventiva nos territórios, proteger equipamentos públicos e atuar em locais de grande circulação, contribuindo para uma atuação mais eficiente das demais forças. Para isso, é fundamental que exista planejamento conjunto, compartilhamento de informações e definição clara de responsabilidades. A segurança pública passa, assim, a ser compreendida não como a atuação isolada de cada instituição, mas como uma rede de proteção que envolve diferentes níveis de governo.

O desafio, portanto, não está apenas em ampliar o efetivo das Guardas Municipais, mas em qualificar esse crescimento. Mais agentes não significam, automaticamente, mais segurança. É necessário investir em formação, equipamentos, tecnologia, inteligência, gestão de efetivo e integração institucional. Também é preciso considerar que o modelo adequado para uma grande metrópole pode ser diferente daquele necessário em uma pequena cidade do interior. O crescimento das Guardas Municipais mostra que os municípios deixaram de ocupar uma posição secundária no debate sobre segurança pública. Com mais de 107 mil profissionais em 2025, as corporações municipais já representam uma parcela expressiva da capacidade de segurança existente no país.

Essa mudança traz uma nova questão para o debate nacional: como integrar essa força às demais instituições de maneira eficiente? O futuro da segurança pública brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de União, Estados e Municípios atuarem de forma coordenada. As Guardas Municipais não estão apenas crescendo em número; estão ajudando a redefinir o papel dos municípios na segurança pública. O desafio agora é transformar esse crescimento em prevenção, eficiência e maior proximidade com a população.

 

* Diretor de Projetos da Coordenadoria da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito do Município de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando e História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

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