Notícias de pindamonhangaba, WALTER MAGUI NOTÍCIAS, Blog com notícias de pinda e toda região do vale da paraíba.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Entre o mito e a realidade: aprendizagens educacionais após a eliminação da seleção brasileira

 


Alimentar elevadas expectativas em torno da conquista de uma Copa do Mundo e ser eliminado precocemente, após uma campanha de baixo desempenho, é frustrante para as novas gerações e melancólico para aqueles que testemunharam, um dia, o chamado jogo bonito. Para ambos os grupos permanece a mesma prisão mitológica: acreditar e reproduzir o antigo ditado de que o Brasil é o país do futebol.

É verdade que o futebol constituiu, durante grande parte do século XX, especialmente entre as décadas de 1930 e 1990, um dos principais elementos de coesão simbólica da identidade nacional. As conquistas internacionais contribuíram para atenuar o chamado "complexo de vira-lata", descrito por Nelson Rodrigues, ao conferir ao país reconhecimento mundial em um campo de excelência. Naquele contexto, o futebol tornou-se motivo de orgulho coletivo por representar uma rara experiência de vitória compartilhada.

Entretanto, o que outrora foi um símbolo nacional consolidou-se, nas últimas décadas, em um pseudossímbolo impulsionado por interesses mercadológicos, direitos de transmissão, marketing esportivo e, mais recentemente, pela massiva presença das casas de apostas — as bets. Em ambos os períodos históricos, contudo, permaneceu uma constante: o Brasil foi celebrado como o país do futebol apenas enquanto espetáculo, jamais enquanto modelo de organização, planejamento, justiça ou desenvolvimento social. Sob essa perspectiva, a expressão "Brasil, país do futebol" configura-se muito mais como um mito do que como uma realidade objetiva. Trata-se de uma narrativa capaz de explicar simbolicamente a experiência do brasileiro, alimentando antigos sonhos de vitória, redenção e prosperidade.

Oxalá existisse semelhante encantamento em torno da educação, a ponto de o país ser reconhecido como "Brasil, país da educação". Não existe. Em relação à educação, não há paixão coletiva, tampouco uma ilusão mobilizadora; prevalece, em grande medida, a frieza burocrática do cumprimento dos ritos mínimos estabelecidos pela legislação. Enquanto o futebol desperta emoções intensas, a educação permanece frequentemente reduzida a uma obrigação institucional.

O imaginário coletivo da vitória da seleção brasileira foi abalado, mas não destruído. A mídia, historicamente, mostrou-se eficiente em alimentar uma esperança passiva, fazendo o torcedor acreditar que, em algum momento, a seleção voltará, quase milagrosamente, a conquistar títulos, muitas vezes sem que se discutam seriamente planejamento, formação de base ou estratégias de longo prazo.

Na educação, ocorre o fenômeno inverso. Não existem ciclos alternados de euforia e frustração, mas um roteiro secular que frequentemente transforma a escola em mero ritual de passagem entre a adolescência dependente e a vida adulta produtiva. A expectativa de formação integral do ser humano acaba subordinada à lógica da certificação e da inserção no mercado de trabalho.

Todavia, a derrota da seleção brasileira oferece uma importante lição à educação. As derrotas, quando reconhecidas com honestidade intelectual, podem abrir espaço para a autocrítica, para a revisão de práticas e para a construção de novos caminhos. Toda crise encerra, potencialmente, uma oportunidade de aperfeiçoamento, desde que exista aquilo que Viktor Frankl denominou "vontade de sentido": a disposição para atribuir significado às dificuldades e transformá-las em crescimento.

A educação brasileira poderá, um dia, despertar o encantamento que o futebol já foi capaz de produzir. Mais do que isso, poderá alcançar aquilo que o futebol nacional jamais conseguiu consolidar plenamente: uma estrutura sólida, planejada, inclusiva e orientada pelo desenvolvimento humano.

Afirmar que o Brasil é o país do futebol tornou-se, hoje, uma falácia semelhante à afirmação de que a educação constitui prioridade nacional sob a perspectiva dos investimentos e dos resultados concretos. A diferença é que o primeiro representa uma paixão coletiva frequentemente desvinculada de compromisso social, enquanto o segundo expressa uma esperança reiteradamente proclamada nos discursos, mas insuficientemente materializada nas políticas públicas.

Se o torcedor brasileiro continua resiliente, acreditando que a seleção um dia voltará a ser protagonista do futebol mundial, também é legítimo cultivar esperança semelhante em relação à educação. A diferença é que essa esperança não pode ser passiva nem depender de milagres. Ela exige planejamento, continuidade, investimento, responsabilidade pública e compromisso coletivo, para que a educação deixe de ser apenas uma promessa recorrente e se torne, efetivamente, a base do pleno desenvolvimento humano e da transformação da sociedade.

Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, diretor de escola, licenciado em Pedagogia, MBA em Liderança e Coaching na Gestão de Pessoas, Mestre e Doutor em Educação. E-mail: rodsouza@educa.pindamonhangaba.sp.gov.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário