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segunda-feira, 13 de abril de 2026

POLÍTICA, POLÍCIA E CÂMERAS: O QUE REVELAM E ESCONDEM AS CÂMERAS CORPORAIS


 



Ítalo do Couto Mantovani*

O Estado de São Paulo se tornou, ao longo da última década, uma espécie de laboratório global de uma promessa tecnológica poderosa: colocar câmeras nos uniformes policiais para reduzir a violência, aumentar a transparência e reconstruir a confiança pública. A ideia é simples: registrar tudo. A realidade, como mostram dados recentes e o relatório do Núcleo de Estudos da Violência da USP, está longe de ser.

Desde a implementação do programa, ainda no início dos anos 2020, os números impressionam. Estudos conduzidos pela Fundação Getúlio Vargas e analisados no relatório indicam que áreas com uso de câmeras corporais registraram queda de até 57% nas mortes decorrentes de intervenção policial. Em alguns recortes, a redução do uso da força ultrapassa 50% e pode chegar perto de 90%, um desempenho acima da média internacional. Não se trata apenas de números frios. A câmera, nesse contexto, atua como um mediador invisível, uma presença que reorganiza comportamentos. Policiais passam a agir sob vigilância constante; cidadãos, por sua vez, interagem com uma autoridade que agora também produz prova. O efeito é duplo: controle institucional e autocontrole individual.

Mas a narrativa de sucesso encontra fissuras importantes. O mesmo período em que a tecnologia se consolidou também foi marcado por contradições profundas. Dados recentes mostram que, entre 2022 e 2024, as mortes de crianças e adolescentes em intervenções policiais aumentaram 120% no estado, chegando a representar 1 em cada 3 mortes violentas nessa faixa etária. A coexistência entre queda no uso da força em áreas monitoradas e aumento de letalidade em outros contextos levanta uma pergunta incômoda: o problema é a ausência da câmera ou seus limites?

Essa pergunta ganhou contornos concretos em um caso recente que chocou o estado. Na última semana de abril, uma ocorrência na zona leste foi registrada por câmeras corporais: uma policial militar, de 21 anos e recém-ingressa na corporação, efetuou um disparo contra uma mulher, que morreu. A agente não utilizava câmera própria (por ser nova), e o registro só existiu porque outro policial estava equipado. As imagens mostram a abordagem, a tensão crescente e dúvidas levantadas ainda no local. Um caso que expõe, de forma direta, lacunas na política de monitoramento.

O impacto não se limita à morte, mas ao que foi possível ver. A câmera revelou a dinâmica da ação e os segundos que antecederam o disparo. Sem o vídeo, haveria versões. Com ele, há evidência. Ainda assim, o episódio explicita um limite central: a câmera garante transparência, mas não impede a violência. Registra, mas não necessariamente previne.

O relatório do Núcleo de Estudos da Violência da USP aponta que o Brasil vive um cenário fragmentado. Hoje, 20 estados utilizam ou testam câmeras corporais, mas sem padronização, transparência ou continuidade nas políticas. Em São Paulo, considerado o modelo mais avançado do país, houve inclusive redução recente do escopo do programa, indicando que a política pública está longe de ser estável. Essa instabilidade revela um ponto central: câmeras não são apenas tecnologia são política. Há resistências internas nas corporações, disputas orçamentárias e, sobretudo, divergências sobre o papel da polícia em uma sociedade marcada por desigualdades históricas. Em muitos casos, o uso da câmera depende de protocolos operacionais frágeis: quando ligar, quando desligar, quem tem acesso às imagens. Sem regras claras, a promessa de transparência pode se transformar em mais uma camada de opacidade.

Além disso, há o problema da seletividade. Estudos e relatórios indicam que tecnologias de vigilância tendem a se concentrar em territórios periféricos e populações vulneráveis, reforçando padrões históricos de controle social. A câmera, nesse sentido, pode tanto proteger quanto vigiar dependendo de quem a controla e de como os dados são utilizados. Ainda assim, ignorar seus efeitos positivos seria um erro analítico. As evidências acumuladas sugerem que, quando bem implementadas, as câmeras corporais funcionam como um dos poucos mecanismos concretos de redução imediata da violência policial no Brasil. Diferentemente de reformas estruturais mais lentas, trata-se de uma intervenção direta sobre a prática cotidiana do policiamento.

O dilema, portanto, não é tecnológico, é institucional. São Paulo mostra que a câmera pode salvar vidas, mas também revela que, sem governança, transparência e compromisso político, ela não transforma, por si só, a lógica da segurança pública. O caso mais recente escancara esse limite: a câmera estava lá, mesmo ainda que de forma parcial e, mesmo assim, o disparo aconteceu. Isso evidencia que o debate precisa avançar para além do equipamento. É necessário pensar em políticas públicas mais amplas e consistentes, que incluam treinamento técnico e emocional adequado, protocolos claros de atuação e, sobretudo, investimento real na carreira policial (no bolso, na mente e na vida desses profissionais). Sem valorização, preparo contínuo e suporte psicológico, a tecnologia atua apenas como registro de falhas já anunciadas. Em última instância, o que está em jogo não é apenas a gravação da ocorrência, mas a disputa sobre qual realidade o Estado escolhe produzir  e quais condições oferece para que seus agentes atuem dentro dela.

 

Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito da Cidade de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando em História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

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