Tecnocracia é um sistema de
governo onde cientistas e especialistas técnicos governam e tomam decisões com
base em dados científicos, em vez de políticos eleitos. O movimento
tecnocrático alcançou expressão entre os anos de 1930 e 1940, nos Estados
Unidos da América, como resposta aos problemas sociais, políticos e econômicos
gerados pela crise dos mercados financeiros, no ano de 1929, tornando
questionável a validade do capitalismo liberal. Perdeu força nas décadas
seguintes, haja vista ser uma proposta radical e desestruturante do status
quo cultural da época. No Brasil, houve reflexo na administração pública a
partir da ditadura militar (1964 – 1985), com a valorização de técnicas em
áreas como economia e planejamento para o controle social e político-ideológico.
Na
atualidade, transposto o conceito de tecnocracia – sistema de governo, para o
campo da educação – tecnocracia educacional, de igual maneira, entende-se ser
um modelo que prioriza a eficiência técnica e o conhecimento especializado na
gestão e nas políticas de ensino. Ampara-se em ferramentas tecnológicas para a
modernização do ensino, oportunizando uma aprendizagem mais dinâmica,
personalizada, interativa, permitindo explorar informações que estão além dos
limites físicos da sala de aula. Recebe críticas, no entanto, por negligenciar
aspectos cruciais da formação humana democrática, como diálogo horizontal e
vivências humanas, exigindo um equilíbrio cuidadoso entre a eficiência técnica
e os valores pedagógicos.
No
contexto de busca incessante de indicadores positivos e melhor ranqueamento do
rendimento escolar por ciclo escolar, constata-se haver uma dependência excessiva
de métricas e avaliações padronizadas de larga escala, que se refletem nos
métodos e práticas didáticas no interior da escola, desde a gestão, até a sala
de aula. Desvirtua-se, assim, o papel da escola, de desenvolver pessoas, em
suas competências humanas, essenciais como a empatia, criatividade e
sensibilidade estética, tornando prioritário mecanismos de controle digital –
plataformização do ensino e aprendizagem, reduzindo a interação social e a
capacidade de pensar criticamente sem o auxílio de sistema de informação.
Entende-se
existir, portanto, veladamente, uma tecnocracia educacional com roupagem de
democracia educacional. Na aparência, sob respaldo da legislação educacional,
por sua vez refletida nos meios de comunicação, defende-se ser o papel da
escola de formar para o exercício consciente da cidadania, contando, pela ação
educativa, com cidadãos ativos, críticos e transformadores. Todavia, em sua
essência, influenciado pela indústria cultural, por meio do mercado de consumo
digital das Big Tecs, é desejado o respeito da ordem social, de
conformação da ordem vigente, submetendo-se às normas e valores próprios da
sociedade tal como se encontra constituída.
Em suma, de modo
paradoxal, espera-se que a educação seja transformadora (democracia educacional),
mas, ao contrário, influenciado pelo poder da comunicação digital (tecnocracia
educacional), deseja-se que a educação exerça o papel hipnótico e anestésico
para a submissão da ordem social. Democracia educacional, com ampla
participação, ativa e inclusiva de conselhos, comissões e grupos engajados com
o diálogo e debate educacional é possível e é para hoje!
Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, licenciado
em Filosofia, História e Pedagogia, Mestre e Doutor em Educação, Diretor da
Escola Municipal Serafim Ferreira – “Sr. Sara”.

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