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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Tecnocracia educacional com roupagem de Democracia educacional: questionando o real papel da escola

             Tecnocracia é um sistema de governo onde cientistas e especialistas técnicos governam e tomam decisões com base em dados científicos, em vez de políticos eleitos. O movimento tecnocrático alcançou expressão entre os anos de 1930 e 1940, nos Estados Unidos da América, como resposta aos problemas sociais, políticos e econômicos gerados pela crise dos mercados financeiros, no ano de 1929, tornando questionável a validade do capitalismo liberal. Perdeu força nas décadas seguintes, haja vista ser uma proposta radical e desestruturante do status quo cultural da época. No Brasil, houve reflexo na administração pública a partir da ditadura militar (1964 – 1985), com a valorização de técnicas em áreas como economia e planejamento para o controle social e político-ideológico.

            Na atualidade, transposto o conceito de tecnocracia – sistema de governo, para o campo da educação – tecnocracia educacional, de igual maneira, entende-se ser um modelo que prioriza a eficiência técnica e o conhecimento especializado na gestão e nas políticas de ensino. Ampara-se em ferramentas tecnológicas para a modernização do ensino, oportunizando uma aprendizagem mais dinâmica, personalizada, interativa, permitindo explorar informações que estão além dos limites físicos da sala de aula. Recebe críticas, no entanto, por negligenciar aspectos cruciais da formação humana democrática, como diálogo horizontal e vivências humanas, exigindo um equilíbrio cuidadoso entre a eficiência técnica e os valores pedagógicos.

            No contexto de busca incessante de indicadores positivos e melhor ranqueamento do rendimento escolar por ciclo escolar, constata-se haver uma dependência excessiva de métricas e avaliações padronizadas de larga escala, que se refletem nos métodos e práticas didáticas no interior da escola, desde a gestão, até a sala de aula. Desvirtua-se, assim, o papel da escola, de desenvolver pessoas, em suas competências humanas, essenciais como a empatia, criatividade e sensibilidade estética, tornando prioritário mecanismos de controle digital – plataformização do ensino e aprendizagem, reduzindo a interação social e a capacidade de pensar criticamente sem o auxílio de sistema de informação.

            Entende-se existir, portanto, veladamente, uma tecnocracia educacional com roupagem de democracia educacional. Na aparência, sob respaldo da legislação educacional, por sua vez refletida nos meios de comunicação, defende-se ser o papel da escola de formar para o exercício consciente da cidadania, contando, pela ação educativa, com cidadãos ativos, críticos e transformadores. Todavia, em sua essência, influenciado pela indústria cultural, por meio do mercado de consumo digital das Big Tecs, é desejado o respeito da ordem social, de conformação da ordem vigente, submetendo-se às normas e valores próprios da sociedade tal como se encontra constituída.

Em suma, de modo paradoxal, espera-se que a educação seja transformadora (democracia educacional), mas, ao contrário, influenciado pelo poder da comunicação digital (tecnocracia educacional), deseja-se que a educação exerça o papel hipnótico e anestésico para a submissão da ordem social. Democracia educacional, com ampla participação, ativa e inclusiva de conselhos, comissões e grupos engajados com o diálogo e debate educacional é possível e é para hoje!

             Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, licenciado em Filosofia, História e Pedagogia, Mestre e Doutor em Educação, Diretor da Escola Municipal Serafim Ferreira – “Sr. Sara”.


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