Manifesto lançado pela Academia de Letras recoloca em pauta a retirada da obra de Tarsila do Amaral e lembra que a primeira tentativa de transferi-la da Serra ocorreu ainda em 2003
A campanha pela volta do quadro Operários, de Tarsila do Amaral, ao Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, voltou ao centro do debate cultural paulista. No último dia 29 de abril, data em que o município comemorou mais um aniversário, a Academia de Letras de Campos do Jordão tornou público um manifesto pedindo ao Governo do Estado a devolução da obra, retirada do palácio em 2019. O documento reacende uma discussão que, embora tenha ganhado força nos últimos anos, começou bem antes e carrega um histórico de insatisfação da cidade com decisões tomadas pela capital.
Para moradores, visitantes habituais e setores ligados à cultura e ao turismo, a ausência de Operários ainda é sentida no principal equipamento artístico do município. A tela permaneceu no Boa Vista por quase cinco décadas e acabou se tornando a peça mais identificada com o espaço, figurando como destaque em visitas guiadas, publicações institucionais e material de divulgação. O Palácio Boa Vista, transformado em museu aberto ao público a partir dos anos 1970, reúne um dos mais importantes acervos do Estado, mas era justamente a obra de Tarsila que concentrava a maior atenção dos visitantes.
No manifesto, a Academia sustenta que a retirada significou mais do que a simples mudança de uma pintura de lugar. Na avaliação dos signatários, houve perda concreta de identidade cultural, já que a obra se incorporou à memória afetiva de Campos do Jordão ao longo de décadas.
Embora a transferência definitiva tenha ocorrido somente em 2019, durante a gestão de João Doria, esta não foi a primeira vez que o Governo de São Paulo tentou remover a tela da Serra.
Em 2003, quando a Secretaria de Estado da Cultura era comandada por Cláudia Costin, a obra entrou num plano de reorganização de acervos que previa concentrar peças de maior relevância artística em equipamentos culturais da capital. A justificativa era de natureza museológica: segundo o entendimento da pasta, Operários teria maior visibilidade pública se integrada a um circuito expositivo em São Paulo.
A proposta, no entanto, encontrou forte resistência em Campos do Jordão.
Naquele momento, lideranças culturais, representantes do turismo, autoridades locais e entidades civis se mobilizaram contra a retirada, argumentando que a obra já mantinha relação consolidada com o Palácio Boa Vista e que sua saída representaria prejuízo simbólico e turístico para a cidade. A pressão política fez com que a ideia fosse interrompida.
A discussão, porém, nunca desapareceu por completo.
Dezesseis anos depois da primeira tentativa, o remanejamento acabou sendo efetivado. Em 2019, o governo estadual determinou a retirada de Operários do Palácio Boa Vista e sua transferência para o Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.
A mudança foi apresentada oficialmente como parte de uma nova organização do acervo artístico dos palácios governamentais. Em Campos do Jordão, entretanto, a decisão foi recebida com desconforto. A avaliação predominante era de que o Boa Vista perdia sua obra mais emblemática sem que houvesse qualquer compensação cultural equivalente.
Desde então, a ausência da tela passou a ser tema recorrente entre visitantes, agentes culturais e moradores ligados à preservação da memória jordanense. A sensação, repetida por muitos, é a de que o palácio permaneceu com seu acervo valioso, mas sem a peça que lhe conferia singularidade diante de outros museus estaduais.
Pintado em 1933, Operários é considerado um dos trabalhos mais importantes de Tarsila do Amaral e uma das imagens mais conhecidas do modernismo brasileiro. A tela retrata dezenas de rostos anônimos diante de chaminés industriais e tornou-se uma representação da formação da classe trabalhadora paulista e da industrialização do Estado.
Esse peso histórico ajudou a ampliar o vínculo da obra com Campos do Jordão. Para a cidade, abrigar no Palácio Boa Vista uma peça dessa dimensão significava manter no interior um dos principais símbolos da arte brasileira em exposição pública permanente.
É justamente esse argumento que reaparece no manifesto divulgado nesta semana: o de que a devolução não teria apenas valor museológico, mas representaria o restabelecimento de uma ligação histórica entre a obra, o palácio e a cidade.
O documento encaminhado ao Governo do Estado pede a revisão da decisão tomada em 2019 e defende o retorno de Operários ao local onde permaneceu por quase cinquenta anos. Até o momento, não houve manifestação oficial sobre a reivindicação.
Enquanto aguarda resposta, Campos do Jordão volta a trazer para a pauta uma discussão antiga e sempre sensível: até que ponto a política de descentralização cultural anunciada pelo Estado se sustenta quando obras de maior prestígio acabam concentradas novamente na capital.
A cobrança pela volta de Operários recoloca essa pergunta de forma direta — e mostra que, para a cidade, o assunto ainda está longe de ser encerrado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário