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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Escola regular como pilar da equidade e iniquidade social: discutindo a dicotomia do capital cultural escolar

 


             Noticiar a evolução da alfabetização na idade certa, no Brasil, é motivo de celebração e justifica o aumento do entusiasmo pela educação por parte dos especialistas em educação e público em geral, pela legitimidade dos esforços empreendidos, desde a elaboração de políticas educacionais, até a sua execução por parte da escola e seus profissionais da educação. Cenário que nos permite perguntar se o avanço nos indicadores de alfabetização na idade certa - ler e escrever para estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental, seguem uma tendência de evolução ou se trata de um desvio pontual da regra cultural de desprestígio da educação.

Há de se reconhecer que a legislação educacional brasileira tem ganhado robustez nas últimas décadas do século XXI, que inclusive correlaciona resultado da aprendizagem com o financiamento da educação, evidenciando cenários cujos resultados educacionais, sejam positivos ou negativos, justificam-se por motivos de ordem econômica, social, cultural e ideológica, válido para todos os entes federados.

            Atuar na causa do baixo desempenho escolar tem se mostrado a missão de todos aqueles que acreditam na educação como uma das fontes de transformação da sociedade. Em tempos de uso de tecnologia avançada, buscadores de informação na internet tem se tornado suporte de aquisição de conhecimento e democratização do debate público, também no campo da educação. Basta um simples comando: “problema, causa e solução da educação no Brasil”, obter-se-á respostas da Inteligência Artificial (IA), esclarecedoras, permitindo entender que a iniquidade educacional nunca é somente de ordem socioeconômica, mas principalmente cultural.

            Na década de 1970, Pierre Bourdieu, sociólogo e filósofo francês (1930–2002), desenvolveu o conceito de Capital Cultural - um ativo não financeiro e econômico, como conhecimento, habilidade, educação formal e informal, linguagem e gostos que conferem poder, prestígio e vantagens sociais a uma pessoa. Ter maior ou menor capital cultural é determinante para o sucesso escolar, que acaba por reforçar o estrato social pertencente.

Uma família ou grupo com costumes, habilidades e gostos apontados como preferidos sob a ótica da cultura erudita, diga-se dominante, na sociedade, transmite o seu sistema de valores para a geração seguinte de modo implícito e simbólico, juntamente com a reprodução curricular arbitral da escola, na condição de reforço do discurso dominante, tornando-a mais preparada para a inserção social. Ao contrário, famílias não inseridas em um cenário de conhecimentos, hábitos e gostos apontados como preferenciais pela cultura erudita, são fadados à exclusão social, iniciando pela escola, por meio da repetência, indisciplina, evasão, entre outros pontos compreendidos como inadequação ao regimento escolar. Em seu bojo, o princípio da meritocracia, que culpabiliza o estudante que não aprende porque não se esforça, desconsiderando os pré-requisitos de capital cultural, diferentes para cada família.

            A escola, enquanto espaço de facilitação da aprendizagem, que guia e, ao mesmo tempo é guiada pelo conhecimento científico e socialização, carrega a responsabilidade de revisitar o seu papel social de emancipar as pessoas para a democracia, evitando produzir violência simbólica, por meio da reprodução da cultura dominante como padrão esperado de ensino e aprendizagem. Ampliar o capital cultural no ambiente escolar de forma equitativa e, portanto, justa, será o melhor serviço socioeducacional possível prestado na atualidade. Capital cultural de origem familiar e escolar voltados para a consolidação dos princípios democráticos, e menos para a reprodução da desigualdade social é possível e é para hoje!

              Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, diretor de escola, licenciado em Pedagogia, MBA em Liderança e Coaching na Gestão de Pessoas, Mestre e Doutor em Educação. E-mail: rodsouza@educa.pindamonhangaba.sp.gov.br

 

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