Noticiar a evolução da
alfabetização na idade certa, no Brasil, é motivo de celebração e justifica o
aumento do entusiasmo pela educação por parte dos especialistas em educação e
público em geral, pela legitimidade dos esforços empreendidos, desde a
elaboração de políticas educacionais, até a sua execução por parte da escola e
seus profissionais da educação. Cenário que nos permite perguntar se o avanço
nos indicadores de alfabetização na idade certa - ler e escrever para
estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental, seguem uma tendência de evolução ou
se trata de um desvio pontual da regra cultural de desprestígio da educação.
Há de se
reconhecer que a legislação educacional brasileira tem ganhado robustez nas
últimas décadas do século XXI, que inclusive correlaciona resultado da
aprendizagem com o financiamento da educação, evidenciando cenários cujos
resultados educacionais, sejam positivos ou negativos, justificam-se por
motivos de ordem econômica, social, cultural e ideológica, válido para todos os
entes federados.
Atuar
na causa do baixo desempenho escolar tem se mostrado a missão de todos aqueles
que acreditam na educação como uma das fontes de transformação da sociedade. Em
tempos de uso de tecnologia avançada, buscadores de informação na internet tem se
tornado suporte de aquisição de conhecimento e democratização do debate
público, também no campo da educação. Basta um simples comando: “problema,
causa e solução da educação no Brasil”, obter-se-á respostas da Inteligência
Artificial (IA), esclarecedoras, permitindo entender que a iniquidade
educacional nunca é somente de ordem socioeconômica, mas principalmente
cultural.
Na
década de 1970, Pierre Bourdieu, sociólogo e filósofo francês (1930–2002),
desenvolveu o conceito de Capital Cultural - um ativo não financeiro e
econômico, como conhecimento, habilidade, educação formal e informal, linguagem
e gostos que conferem poder, prestígio e vantagens sociais a uma pessoa. Ter
maior ou menor capital cultural é determinante para o sucesso escolar, que
acaba por reforçar o estrato social pertencente.
Uma família ou
grupo com costumes, habilidades e gostos apontados como preferidos sob a ótica
da cultura erudita, diga-se dominante, na sociedade, transmite o seu sistema de
valores para a geração seguinte de modo implícito e simbólico, juntamente com a
reprodução curricular arbitral da escola, na condição de reforço do discurso
dominante, tornando-a mais preparada para a inserção social. Ao contrário,
famílias não inseridas em um cenário de conhecimentos, hábitos e gostos apontados
como preferenciais pela cultura erudita, são fadados à exclusão social, iniciando
pela escola, por meio da repetência, indisciplina, evasão, entre outros pontos
compreendidos como inadequação ao regimento escolar. Em seu bojo, o princípio
da meritocracia, que culpabiliza o estudante que não aprende porque não se
esforça, desconsiderando os pré-requisitos de capital cultural, diferentes para
cada família.
A
escola, enquanto espaço de facilitação da aprendizagem, que guia e, ao mesmo
tempo é guiada pelo conhecimento científico e socialização, carrega a responsabilidade
de revisitar o seu papel social de emancipar as pessoas para a democracia,
evitando produzir violência simbólica, por meio da reprodução da cultura
dominante como padrão esperado de ensino e aprendizagem. Ampliar o capital
cultural no ambiente escolar de forma equitativa e, portanto, justa, será o
melhor serviço socioeducacional possível prestado na atualidade. Capital
cultural de origem familiar e escolar voltados para a consolidação dos
princípios democráticos, e menos para a reprodução da desigualdade social é
possível e é para hoje!
Por Rodrigo Tarcha Amaral de Souza, diretor de
escola, licenciado em Pedagogia, MBA em Liderança e Coaching na Gestão de
Pessoas, Mestre e Doutor em Educação. E-mail: rodsouza@educa.pindamonhangaba.sp.gov.br

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