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sexta-feira, 6 de março de 2026

SEGURANÇA PERDE PROTAGONISMO NO ORÇAMENTO PAULISTA

 



Ítalo do Couto Mantovani*

O número impressiona: dezenas de bilhões destinados à segurança pública em um estado que concentra a maior economia do país. Mas, por trás das cifras robustas do Orçamento de 2026 do Estado de São Paulo, a pergunta que ecoa nas ruas é mais simples e mais incômoda: o investimento será suficiente para transformar estatísticas em sensação real de segurança? E, sobretudo, alcançará o ponto central da crise: a valorização concreta do policial que arrisca a própria vida diariamente? Sem salário digno, carreira estruturada, treinamento permanente e apoio psicológico efetivo, não há política de segurança que se sustente. Segurança pública começa pela valorização de quem veste a farda.

A proposta orçamentária para 2026 não mantém a segurança pública como prioridade central da gestão do Estado de São Paulo. Em um cenário de restrições fiscais, crescimento moderado da arrecadação e pressões sociais crescentes, a distribuição de recursos evidencia escolhas políticas que deslocam o protagonismo do setor para outras áreas da administração. A segurança, embora continue figurando entre as maiores rubricas orçamentárias, perde espaço estratégico no discurso e na prática. E isso ocorre justamente quando o tema permanece no topo das preocupações da população e influencia diretamente a percepção de eficiência do Estado.

A análise comparativa dos números evidencia uma mudança clara de peso relativo da segurança pública no orçamento do Estado de São Paulo, na Gestão do Tarcísio de Freitas. Para efeito de comparação, entre 2019 e 2022, durante a gestão de João Doria, a segurança pública recebeu valores que variaram entre R$ 21,8 bilhões e R$ 24,3 bilhões por ano. Nesse período, a área representou uma fatia entre 8,1% e 10,2% do orçamento total do Estado de São Paulo, mantendo média anual superior a R$ 23,7 bilhões e participação aproximada de 9% das despesas estaduais. Em termos simples, a cada R$ 100 gastos pelo Estado, cerca de R$ 9 eram destinados à segurança pública. Já entre 2023 e 2026, na gestão de Tarcísio de Freitas, o orçamento total do Estado de São Paulo cresceu de forma significativa, passando de R$ 317,4 bilhões em 2023 para R$ 382,3 bilhões em 2026. Contudo, a participação da segurança pública nesse total diminuiu ao longo do período. Em 2023, a área representava 8,5% do orçamento. Em 2025, esse percentual caiu para 5,4%, o que significa pouco mais de R$ 5 a cada R$ 100 gastos pelo Estado. Para 2026, a previsão é de 5,5%, mantendo o patamar reduzido. Em valores absolutos houve oscilações, R$ 27 bilhões em 2023 para R$ 18,2 bilhões em 2024 e 20 milhões em 2026, mas o dado central é indiscutível: enquanto o orçamento estadual avançou (média de 7% ao ano), a segurança pública perdeu espaço de maneira ainda mais intensa, encolhendo não apenas proporcionalmente, mas em ritmo superior ao crescimento das despesas totais do Estado.

Se ampliarmos o olhar histórico, o contraste se torna ainda mais evidente. Entre 2000 e 2018, nas gestões de Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra, a segurança pública manteve participação relativamente estável no orçamento do Estado de São Paulo, oscilando, na maior parte do tempo, entre 8% e 10% das despesas totais, com momentos acima de 10%, como em 2000, 2001 e 2017. Em termos práticos, durante quase duas décadas, a cada R$ 100 gastos pelo Estado, algo entre R$ 8 e R$ 10 eram destinados à segurança. Havia variações anuais, mas não ruptura estrutural. Esse padrão histórico de estabilidade orçamentária reforça a percepção de que a queda para a faixa dos 5% observada a partir de 2024 não representa mera oscilação conjuntural, mas uma inflexão significativa na prioridade relativa atribuída ao setor.

Grande parte do orçamento da segurança pública continua concentrada na estrutura das forças policiais, especialmente na Polícia Militar do Estado de São Paulo e na Polícia Civil do Estado de São Paulo, onde as folhas de pagamento consomem parcela expressiva dos recursos (média de 80%), refletindo o peso de uma estrutura administrativa que demanda constante reposição de efetivo (promessa recorrente diante da defasagem acumulada nos últimos anos). Paralelamente, o orçamento também direciona recursos à modernização tecnológica, com investimentos em monitoramento inteligente, ampliação do uso de câmeras corporais, integração de bancos de dados e fortalecimento dos sistemas de inteligência, numa tentativa de adaptar o aparato estatal a uma criminalidade cada vez mais organizada, digital e sofisticada, marcada pelo crescimento dos crimes cibernéticos, das fraudes financeiras e das redes interestaduais do tráfico.

Os indicadores recentes de criminalidade revelam um cenário ambíguo: enquanto alguns índices apresentam queda, outros, especialmente os crimes patrimoniais e os golpes digitais, avançam e se sofisticam. Mas a população não vive de planilhas. A eficácia do orçamento não é medida apenas por gráficos oficiais, e sim pela experiência concreta do dia a dia: a tranquilidade ao caminhar à noite, a confiança de procurar uma delegacia, a presença real do Estado nas periferias. O orçamento de 2026 transforma a segurança pública em tema central do debate, mas também impõe uma escolha decisiva: não basta investir mais, é preciso investir melhor. Transparência na execução, metas objetivas, avaliação rigorosa de resultados e controle social efetivo serão determinantes para que bilhões não se percam na engrenagem da burocracia. Porque, no fim, o orçamento não é apenas um conjunto de números, é a expressão das prioridades políticas. E, em um estado do tamanho e da complexidade do Estado de São Paulo, a forma como cada real será aplicado poderá redefinir não só estatísticas criminais, mas a própria confiança entre cidadão e governo. Segurança tem custo. A ausência dela, muito mais.

 

* Diretor de Projetos da Coordenadoria da Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito do Município de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando e História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

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