Ítalo do Couto Mantovani*
Pindamonhangaba
enfrenta um dilema que desafia a lógica da gestão pública: enquanto os avanços
na segurança municipal começam a aparecer, com redução de indicadores criminais
e maior produtividade policial, o orçamento municipal destinado ao setor sofre
um corte abrupto e preocupante. A previsão para 2026 aponta uma queda drástica
nos investimentos, colocando em xeque a continuidade desse ciclo positivo. O
contraste é evidente e inquietante: como sustentar resultados que exigem
presença, tecnologia e planejamento com recursos significativamente menores? A
resposta, ainda indefinida, projeta incertezas sobre o futuro da segurança na
cidade e acende um alerta que vai além dos números, atinge diretamente a
sensação de proteção da população.
Nos
últimos anos, Pindamonhangaba promoveu uma virada estratégica na forma de
encarar a segurança pública. A criação e o fortalecimento da Secretaria
Municipal de Segurança Pública não foram
apenas mudanças administrativas, representaram uma ruptura com um modelo
antigo, em que o tema era tratado de forma secundária, subordinado à Secretaria
de Administração e restrito a um departamento com alcance limitado. A partir de
então, a cidade passou a investir de maneira mais robusta e contínua,
acompanhando a expansão de programas, a incorporação de tecnologia e o reforço
do efetivo nas ruas. Foi o início de um novo ciclo, marcado por protagonismo
institucional e maior capacidade de resposta diante das demandas da população.
Os
números contam uma história clara e contundente. Em poucos anos,
Pindamonhangaba saiu de um investimento modesto de R$ 3,3 milhões em 2018 para
cifras que reposicionaram a segurança no centro da agenda pública. O salto para
R$ 4,1 milhões em 2019 já indicava mudança de direção, mas foi a partir de 2020
que o avanço ganhou força: R$ 25,3 milhões naquele ano, seguidos por R$ 29,2
milhões em 2021 e R$ 29 milhões em 2022. A escalada continuou em ritmo
acelerado, alcançando R$ 43 milhões em 2023 e atingindo o ápice em 2024, com R$
61 milhões, o maior investimento da história do município no setor. Em 2025,
mesmo com um leve recuo para R$ 56 milhões, o patamar permaneceu elevado,
consolidando um ciclo de expansão que transformou a segurança urbana em
prioridade concreta, e não apenas discurso.
O
dado que mais chama atenção, porém, é o que projeta uma inflexão brusca nessa
trajetória. Para 2026, a previsão orçamentária despenca para R$ 17,5 milhões,
uma queda superior a 68% em relação ao ano anterior. Trata-se de um corte
drástico, que interrompe de forma abrupta a curva de crescimento sustentado
desde 2018 e rompe com uma sequência de investimentos que vinha, ano após ano,
consolidando a segurança como prioridade estratégica no município.
A retração orçamentária ocorre justamente no momento em que
a segurança municipal vem ganhando protagonismo e maturidade em
Pindamonhangaba. Nos últimos anos, a cidade avançou com políticas mais
integradas, ampliou o uso de tecnologia, firmou convênios de policiamento e
intensificou a presença nas ruas, um conjunto de ações que exige continuidade,
planejamento e, sobretudo, previsibilidade de recursos. Especialistas são
unânimes: sem estabilidade orçamentária, há risco real de descontinuidade e
perda de eficiência. Esse cenário ganhou contornos ainda mais concretos e
preocupantes após os recentes episódios na Câmara Municipal. A aprovação do
projeto que reduz o efetivo da Atividade Delegada de 21 para 16 policiais
escancarou o descompasso entre discurso e prática. A justificativa oficial,
centrada na falta de previsão orçamentária, expôs uma equação difícil de
sustentar: para reajustar uma diária ainda considerada baixa em comparação com
cidades vizinhas, o município optou por diminuir o número de agentes nas ruas.
A decisão, longe de ser apenas técnica, revelou
fragilidades no planejamento e acirrou o debate político. Entre críticas de
desvalorização da tropa, questionamentos sobre prioridades e promessas de
investimentos em tecnologia ainda travadas por entraves legais, o que emerge é
um cenário de incerteza. Enquanto projetos de monitoramento avançado enfrentam
obstáculos, o corte no efetivo humano se concretiza de forma imediata,
atingindo diretamente a capacidade de resposta da segurança pública.
Mais do que números, há um impacto simbólico difícil de
ignorar. A segurança pública municipal deixou de ocupar um papel secundário e
passou a figurar entre as principais preocupações da população. Nesse contexto,
uma oscilação tão brusca de investimentos, somada a decisões que reduzem
presença policial, não afeta apenas a estrutura operacional, mas também a
percepção de segurança, fator decisivo na confiança entre o cidadão e o poder
público. o cenário coloca Pindamonhangaba diante de um desafio: como manter ou
aprofundar os avanços recentes na segurança pública com um orçamento
significativamente menor? A resposta a essa pergunta deve pautar o debate
político e técnico em 2026, em um tema que, mais do que números, envolve diretamente
a qualidade de vida da população.
Diretor de Projetos da Coordenadoria de Governança da
Atividade Delegada – Gabinete do Vice-Prefeito da Cidade de São Paulo
Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP
Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional
Graduando em História pela USP
Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo
Contato: italocmantovani@gmail.com

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