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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

QUANDO OS NÚMEROS PESAM: CRIMINALIDADE E ESFORÇO POLICIAL EM PINDAMONHANGABA



 

Ítalo do Couto Mantovani*

Os números não gritam, eles pesam. E, quando analisados em profundidade, os indicadores criminais de Pindamonhangaba entre 2024 e 2025, no ano completo, revelam mais do que variações estatísticas: expõem tendências estruturais da violência urbana, deslocamentos no perfil da criminalidade e pontos de tensão que desafiam a capacidade de resposta do Estado.

No núcleo mais sensível da segurança pública, os crimes contra a vida, observa-se uma redução consistente dos homicídios dolosos, mas ainda em patamar elevado. Em 2024, o município registrou 31 homicídios, com 33 vítimas. Em 2025, esse número caiu para 25 ocorrências e 26 vítimas, representando uma redução de 19,4% nos crimes e 21,2% nas vítimas. Trata-se de um avanço significativo em termos proporcionais, mas que não elimina o impacto social de mais de duas dezenas de mortes intencionais em um único ano, sobretudo em um município de porte médio como o nosso.

O dado ganha contornos ainda mais graves quando se observa o latrocínio. Após zero vítimas em 2024, 2025 rompeu essa estabilidade com o registro de um caso fatal, evidenciando a presença, ainda que pontual, de um crime que combina violência extrema e vulnerabilidade patrimonial, e que costuma carregar alto potencial de comoção social.

Nos crimes patrimoniais, o cenário é de expansão quantitativa e mudança qualitativa. O furto, crime de maior incidência no município, avançou de 1.134 registros em 2024 para 1.206 em 2025, um acréscimo de 72 ocorrências (+6,3%). Esse crescimento não é episódico: ele consolida o furto como fenômeno cotidiano, disperso territorialmente e de difícil repressão, afetando diretamente a percepção de segurança da população.

Mais contundente ainda é o comportamento do furto de veículos, que saltou de 97 para 151 casos, um aumento de 55,7% em apenas um ano. Em termos absolutos, são 54 veículos a mais subtraídos, revelando não apenas maior exposição dos bens, mas possíveis fragilidades na prevenção e na dissuasão desse tipo específico de crime.

O roubo, por sua vez, apresenta uma dinâmica ambígua. O total de roubos-outros recuou levemente, de 196 para 191 ocorrências (-2,6%), sugerindo certo controle nas modalidades tradicionais. No entanto, o roubo de veículos seguiu trajetória oposta, crescendo de 37 para 51 casos, um aumento de 37,8%. O dado indica um redirecionamento da ação criminosa, mais focada em alvos de maior valor agregado e impacto econômico.

Nos crimes contra a dignidade sexual, os números revelam um paradoxo preocupante. O total de estupros caiu de 42 registros em 2024 para 38 em 2025, uma redução de 9,5%. Entretanto, essa melhora aparente é neutralizada pelo avanço do estupro de vulnerável, que subiu de 25 para 28 vítimas, crescimento de 12%. Em termos proporcionais, isso significa que mais de 73% dos estupros registrados em 2025 envolveram vítimas vulneráveis, evidenciando a persistência de uma violência silenciosa, muitas vezes intrafamiliar, de difícil detecção e alto custo social.

Por outro lado, a produtividade policial em Pindamonhangaba apresentou, em 2025, um salto expressivo em praticamente todos os seus principais indicadores, revelando uma atuação mais intensa, proativa e com maior capacidade de resposta frente à dinâmica criminal do município. O número total de prisões efetuadas passou de 244 em 2024 para 355 em 2025, um aumento absoluto de 111 prisões, equivalente a +45,5%. O crescimento foi sustentado tanto pelas prisões em flagrante, que saltaram de 130 para 194 (+49,2%), quanto pelas prisões por mandado, que passaram de 142 para 198 (+39,4%), indicando avanço simultâneo na repressão imediata e no cumprimento de ordens judiciais. Esse movimento é reforçado pelo aumento robusto de flagrantes lavrados, que subiram de 111 para 171 registros, um crescimento de 60 ocorrências (+54,1%), evidenciando maior presença policial e maior capacidade de transformar abordagens em resultados concretos. No enfrentamento direto ao crime organizado e aos delitos conexos, os dados também são contundentes. As ocorrências de tráfico de entorpecentes permaneceram em patamar elevado, com leve recuo de 139 para 133 casos (-4,3%), mas acompanhadas de um aumento significativo nas ações repressivas associadas. As ocorrências de porte de entorpecentes cresceram de 19 para 28 (+47,4%), enquanto o porte ilegal de arma de fogo avançou de 42 para 45 registros (+7,1%), mantendo estável o número de armas apreendidas, com 25 unidades em ambos os anos. Destaca-se ainda o forte crescimento no número de veículos recuperados, que saltou de 56 em 2024 para 98 em 2025, um acréscimo de 42 veículos (+75%), com impacto direto sobre crimes patrimoniais. Esse conjunto de ações se reflete no aumento expressivo dos inquéritos policiais instaurados, que passaram de 984 para 1.468, um crescimento de 484 procedimentos (+49,2%), sinalizando não apenas maior volume de ocorrências tratadas, mas uma ampliação concreta da capacidade investigativa do sistema de segurança pública no município.

Em síntese, os dados revelam uma segurança pública sustentada mais pelo esforço humano do que por investimentos estruturais. A redução dos homicídios e o aumento expressivo da produtividade policial evidenciam capacidade técnica e comprometimento das forças de segurança, mas esses resultados vêm sendo alcançados em meio à escassez de recursos, limitações materiais, sobrecarga de trabalho e cobranças crescentes, sem avanço proporcional em efetivo, tecnologia ou valorização profissional. O cenário expõe um paradoxo claro: produz-se mais com menos. Sem investimentos contínuos, planejamento de longo prazo e reconhecimento institucional, os ganhos obtidos tendem a perder fôlego. Assim, o desafio de Pindamonhangaba não se limita ao enfrentamento da criminalidade, mas inclui garantir condições reais e sustentáveis para que quem atua na linha de frente continue entregando resultados com eficiência, dignidade e respaldo do Estado.

 

* Diretor da Divisão de Estudos e Monitoramento da Coordenadoria da Atividade

Delegada – Secretaria de Governo Municipal da Cidade de São Paulo

Formado em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional

Graduando e História pela USP

Professor de Cursinho pré-vestibular em São Paulo

Contato: italocmantovani@gmail.com

 

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