Ítalo do Couto
Mantovani*
Os números não gritam,
eles pesam. E, quando analisados em profundidade, os
indicadores criminais de Pindamonhangaba entre 2024 e 2025, no ano completo,
revelam mais do que variações estatísticas: expõem tendências estruturais da
violência urbana, deslocamentos no perfil da criminalidade e pontos de tensão
que desafiam a capacidade de resposta do Estado.
No
núcleo mais sensível da segurança pública, os crimes contra a vida,
observa-se uma redução consistente dos homicídios dolosos, mas ainda em
patamar elevado. Em 2024, o município registrou 31 homicídios, com 33 vítimas.
Em 2025, esse número caiu para 25 ocorrências e 26 vítimas,
representando uma redução de 19,4% nos crimes e 21,2% nas vítimas.
Trata-se de um avanço significativo em termos proporcionais, mas que não
elimina o impacto social de mais de duas dezenas de mortes intencionais em um único ano,
sobretudo em um município de porte médio como o nosso.
O
dado ganha contornos ainda mais graves quando se observa o latrocínio.
Após zero
vítimas em 2024, 2025 rompeu essa estabilidade com o
registro de um
caso fatal, evidenciando a presença, ainda que pontual, de um
crime que combina violência extrema e vulnerabilidade patrimonial, e que
costuma carregar alto potencial de comoção social.
Nos
crimes
patrimoniais, o cenário é de expansão quantitativa e mudança qualitativa.
O furto,
crime de maior incidência no município, avançou de 1.134 registros em 2024 para
1.206 em 2025, um acréscimo de 72 ocorrências (+6,3%). Esse
crescimento não é episódico: ele consolida o furto como fenômeno cotidiano,
disperso territorialmente e de difícil repressão, afetando diretamente a
percepção de segurança da população.
Mais
contundente ainda é o comportamento do furto de veículos, que saltou de 97 para 151 casos,
um aumento de 55,7% em apenas um ano. Em termos absolutos, são 54 veículos a mais
subtraídos, revelando não apenas maior exposição dos bens, mas
possíveis fragilidades na prevenção e na dissuasão desse tipo específico de
crime.
O
roubo,
por sua vez, apresenta uma dinâmica ambígua. O total de roubos-outros
recuou levemente, de 196 para 191 ocorrências (-2,6%), sugerindo certo
controle nas modalidades tradicionais. No entanto, o roubo de veículos
seguiu trajetória oposta, crescendo de 37 para 51 casos, um aumento de 37,8%. O
dado indica um redirecionamento da ação criminosa, mais focada em alvos
de maior valor agregado e impacto econômico.
Nos
crimes
contra a dignidade sexual, os números revelam um paradoxo
preocupante. O total de estupros caiu de 42 registros em 2024 para 38 em 2025,
uma redução de 9,5%. Entretanto, essa melhora aparente é neutralizada
pelo avanço do estupro de vulnerável, que subiu de 25 para 28 vítimas,
crescimento de 12%. Em termos proporcionais, isso significa que mais de 73% dos estupros
registrados em 2025 envolveram vítimas vulneráveis,
evidenciando a persistência de uma violência silenciosa, muitas vezes
intrafamiliar, de difícil detecção e alto custo social.
Por
outro lado, a produtividade policial em Pindamonhangaba apresentou, em 2025, um
salto expressivo em praticamente todos os seus principais indicadores,
revelando uma atuação mais intensa, proativa e com maior capacidade de resposta
frente à dinâmica criminal do município. O número total de prisões efetuadas
passou de 244 em 2024 para 355 em 2025, um aumento absoluto de 111 prisões,
equivalente a +45,5%. O crescimento foi sustentado tanto pelas prisões em
flagrante, que saltaram de 130 para 194 (+49,2%), quanto pelas prisões por
mandado, que passaram de 142 para 198 (+39,4%), indicando avanço simultâneo na
repressão imediata e no cumprimento de ordens judiciais. Esse movimento é
reforçado pelo aumento robusto de flagrantes lavrados, que subiram de 111 para
171 registros, um crescimento de 60 ocorrências (+54,1%), evidenciando maior
presença policial e maior capacidade de transformar abordagens em resultados
concretos. No enfrentamento direto ao crime organizado e aos delitos conexos,
os dados também são contundentes. As ocorrências de tráfico de entorpecentes
permaneceram em patamar elevado, com leve recuo de 139 para 133 casos (-4,3%),
mas acompanhadas de um aumento significativo nas ações repressivas associadas.
As ocorrências de porte de entorpecentes cresceram de 19 para 28 (+47,4%),
enquanto o porte ilegal de arma de fogo avançou de 42 para 45 registros
(+7,1%), mantendo estável o número de armas apreendidas, com 25 unidades em
ambos os anos. Destaca-se ainda o forte crescimento no número de veículos
recuperados, que saltou de 56 em 2024 para 98 em 2025, um acréscimo de 42
veículos (+75%), com impacto direto sobre crimes patrimoniais. Esse conjunto de
ações se reflete no aumento expressivo dos inquéritos policiais instaurados, que
passaram de 984 para 1.468, um crescimento de 484 procedimentos (+49,2%),
sinalizando não apenas maior volume de ocorrências tratadas, mas uma ampliação
concreta da capacidade investigativa do sistema de segurança pública no
município.
Em síntese, os dados revelam uma segurança pública sustentada mais pelo
esforço humano do que por investimentos estruturais. A redução dos
homicídios e o aumento expressivo da produtividade policial evidenciam
capacidade técnica e comprometimento das forças de segurança, mas esses
resultados vêm sendo alcançados em meio à escassez de recursos, limitações materiais, sobrecarga de trabalho e
cobranças crescentes, sem avanço proporcional em efetivo, tecnologia ou
valorização profissional. O cenário expõe um paradoxo claro: produz-se mais com menos. Sem investimentos
contínuos, planejamento de longo prazo e reconhecimento institucional, os
ganhos obtidos tendem a perder fôlego. Assim, o desafio de Pindamonhangaba não
se limita ao enfrentamento da criminalidade, mas inclui garantir condições reais e sustentáveis para
que quem atua na linha de frente continue entregando resultados com eficiência,
dignidade e respaldo do Estado.
* Diretor da
Divisão de Estudos e Monitoramento da Coordenadoria da Atividade
Delegada –
Secretaria de Governo Municipal da Cidade de São Paulo
Formado em Gestão
de Políticas Públicas pela USP
Mestre em Gestão e
Desenvolvimento Regional
Graduando e
História pela USP
Professor de
Cursinho pré-vestibular em São Paulo
Contato:
italocmantovani@gmail.com

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