Ítalo do Couto
Mantovani*
Em
meio às rotinas cotidianas de quem vive em Pindamonhangaba, a segurança pública
permanece como um dos principais termômetros da qualidade de vida da população.
Para além das manchetes e da percepção subjetiva de tranquilidade ou medo nas
ruas, os dados oficiais revelam movimentos relevantes e, por vezes,
contraditórios: avanços concretos no enfrentamento da violência letal, reduções
em crimes que historicamente impactam o cotidiano urbano e, simultaneamente,
sinais claros de alerta em modalidades específicas que seguem desafiando o
poder público. A comparação entre os números registrados de janeiro a novembro
de 2025 e o mesmo período de 2024 indica que, embora o município tenha avançado
na redução de homicídios, estupros e parte dos crimes patrimoniais, a dinâmica
da criminalidade local continua em transformação, exigindo respostas cada vez
mais qualificadas, articuladas e baseadas em evidências.
No
recorte das vítimas de homicídio doloso, Pindamonhangaba contabilizou 24
vítimas entre janeiro e novembro de 2025, frente a 28 no mesmo intervalo de
2024. A redução de quatro vítimas, equivalente a aproximadamente 14%, aponta
para uma diminuição relevante da letalidade violenta, um dos indicadores mais
sensíveis da segurança pública. Os registros de estupro também apresentaram
leve recuo: foram 36 casos em 2025, contra 37 em 2024. Chama atenção o fato de
que mais de 55% dessas ocorrências seguem relacionadas ao estupro de
vulnerável, o que reforça a centralidade de políticas públicas voltadas à
proteção de crianças e adolescentes, à prevenção da violência sexual e ao
fortalecimento dos mecanismos de denúncia e acolhimento das vítimas.
Nos
crimes patrimoniais, o cenário se mostra mais heterogêneo. Os roubos, excluídos
os de veículos, apresentaram estabilidade, com leve queda de 177 ocorrências em
2024 para 176 em 2025. Em sentido oposto, os roubos de veículos cresceram de
forma expressiva, saltando de 34 para 44 registros no comparativo entre os dois
períodos, um aumento de 29%. O dado sugere maior atuação de grupos
especializados e possíveis fragilidades no enfrentamento à receptação, crime
que sustenta esse tipo de dinâmica criminosa.
Os
furtos em geral também apresentaram crescimento, passando de 1.068 ocorrências
em 2024 para 1.090 em 2025, um aumento de 22 casos, ou cerca de 2%. Embora
percentualmente modesto, o avanço revela instabilidade no controle desse
delito, que afeta diretamente a sensação de segurança da população. Ainda mais
preocupante é o comportamento do furto de veículos, que registrou alta
expressiva: foram 115 ocorrências em 2025, contra 87 no ano anterior, um
crescimento de 32,6%, consolidando esse tipo de crime como um dos principais
desafios atuais da segurança pública no município.
O
conjunto dos dados indica que Pindamonhangaba atravessa um momento de transição
no campo da segurança pública. A redução das vítimas de homicídio doloso e a
relativa estabilidade nos registros de estupro podem sinalizar que políticas de
prevenção à violência mais grave começam a produzir efeitos concretos,
preservando vidas e reduzindo danos sociais profundos. Contudo, a ausência de
informações mais detalhadas e análises públicas, tanto por parte da Secretaria
de Segurança Pública do Estado quanto da Secretaria Municipal de Segurança,
limita a compreensão mais aprofundada sobre as causas desses resultados e sobre
sua sustentabilidade no médio e longo prazo. Paralelamente, o avanço dos crimes
patrimoniais, especialmente os relacionados a veículos, evidencia novas
dinâmicas da criminalidade urbana e reforça a percepção de que a sensação de
segurança ainda não acompanha plenamente os indicadores positivos.
Diante
desse cenário, torna-se evidente que o enfrentamento da criminalidade exige
mais do que respostas pontuais ou ações isoladas. O desafio central para o
município é transformar a redução da violência letal em um processo consistente
e duradouro, capaz de alcançar também os crimes que impactam diretamente o
cotidiano da população. Investimentos em inteligência policial, integração
regional para o combate à receptação, ampliação do monitoramento urbano e
políticas preventivas voltadas à juventude e à proteção de grupos vulneráveis
aparecem como caminhos indispensáveis para evitar que os avanços se percam. Em
última instância, os números reforçam uma constatação fundamental: segurança
pública não é um estado permanente, mas um equilíbrio frágil, que depende de
planejamento contínuo, presença efetiva do Estado e participação ativa da
sociedade.
* Diretor da Divisão de Estudos e
Monitoramento da Coordenadoria da Atividade
Delegada – Secretaria de Governo
Municipal da Cidade de São Paulo
Formado em Gestão de Políticas
Públicas pela USP
Mestre em Gestão e Desenvolvimento
Regional
Graduando e História pela USP
Professor de Cursinho pré-vestibular
em São Paulo
Contato: italocmantovani@gmail.com

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